quarta-feira, 11 de julho de 2012

Pedras no telhado


São 1h30 da manhã. Saio do banho e o bafo inunda o banheiro atrapalhando a minha visão, parecendo uma sauna. Alguns segundos depois enxergo toalha, eu a pego e começo a me secar. Por causa do horário, os moradores descansam, os menores ruídos ficam perceptíveis. 

Enquanto me seco, escuto alguns barulho que não são comuns, uns gemidos. Paro de fazer o que estou fazendo e me pergunto “será que minha mãe está vendo filme pornô? Não acredito que a veia tá fazendo isso”. 

Deixo isso de lado e vou para o quarto colocar a roupa. Enquanto me visto, os gemidos ficam mais alto. Olho pela janela e os gemidos continuam. Me dou conta que os gemidos vem dos fundos da minha casa. 

 - Meu Deus, são os inquilinos que estão transando!!! Mas precisam gritar desse jeito?

A curiosidade falou mais alto, saio do meu quarto, sigo o caminho até o quintal, quase um breu, a luz da lua me serviu como guia até o portão.  Abro o portão bem devagar, para confirmar se realmente os inquilinos estão transando. Me veio a confirmação. 

Volto lentamente e caminho até o quarto da minha mãe que fica no quintal, o famoso puxadinho. Dou algumas batidas na porta para ver se a minha mãe está acordada. Minha mãe abre a porta e eu pergunto de uma maneira quase inaudível: 

- Mãe, você está escutando isso? Os inquilinos estão transando muito alto.

Eu esperava uma reação mais calma da minha mãe, quando de repente ela grita:

- Éééééé eu sei, eles não me deixam dormir.

- Fala baixo!!! E o que você vai fazer?

- Pera aí, que vou dar um jeito rapidinho. 

Minha mãe caminha lentamente até o quintal, pega três pedras e arremessa a primeira pedra. Acho que eles levaram um baita susto, porque o barulho da batida da pedra foi idêntica a uma explosão. Naquele horário com pouco movimento, aumentou o estrondo em uma cinco vezes.
 
Ela volta sem pressa e diz toda confiante: “quero ver se eles param agora”. Eu retruco de forma irônica “ah tá, agora sim você solucionou o problema”. 

Pelo visto o método sutil da minha mãe surtiu efeito, quando voltei ao meu quarto, escutava apenas o barulho da geladeira descongelando e alguns latidos de cães vadios. Desligo as luzes, deito, e espero para encontrar os inquilinos com a cara mais normal do mundo. Como se nada tivesse acontecido.

até breve

terça-feira, 10 de julho de 2012

Mulher ciumenta

Imagem da internet


Saio da minha baia no trabalho para pegar um pouco de água, em pouco tempo, volto e me deparo com um rapaz da limpeza me esperando. Ele me segue e faz a seguinte pergunta:

- Ou, comprei este celular novo e tem como você me ensinar a ver os vídeos e fotos dele?

Mexo no celular e mostro as funções dele:

- É aqui que você clica e vê os vídeos e os outros arquivos.

- Ah tá, é porque a minha "muié" mexeu no meu celular e apagou todas as fotos e vídeos.

- Mas por que ela apagou todos os arquivos?

- É porque os colegas passaram uns vídeos e ela não gostou.

- Que tipo de vídeos? - pergunto desconfiado, mas já sabendo a reposta.

- Era alguns vídeos de mulher pelada e ela não gostou nadinha de ver. Mas não ligo não, depois eles passam de novo. Quero ver ela pegar no meu celular de novo (sic).


até breve


domingo, 20 de maio de 2012

Pés sujos


Nasci 13 de janeiro. Nem um dia a mais ou menos. Fui concebido de um mar de erros do desconhecido. Naveguei, flutuei, e submerso estou. Em meus pés ainda há lama daquele dia em que vi a luz do sofrimento. Vim  do pecado carnal da vida. Flagelei minha mãe por nove meses. Fiz ela passar por dores inconstantes, pedindo um pouco de alimento. Este alimento não tem nome, não tem cheiro, não tem sabor, é inexplicável. Se você consegue explicar, parabéns. Você é um ser elevado, acima do normal.

Pedi para voltar, mas o retorno já não me era possível. A partir daí, constitui um elo que os homens chamam de muitos nomes. Sinto muito, mas não consegui decifrar tal coisa, sentimento, sei lá. Acredito, que desceu pelo ralo do meu primeiro banho quando dei no meu primeiro choro neste mundo. Desde então procuro o tal alimento.

Através de fotos nas paredes ou nos books desgastados de tantas pesquisas inúteis. Vesti as mais diversas fantasias, das mais variadas cores e formas. Já vesti cristais e ouros, mas no outro dia estava como um farrapo. Roupas puídas. Ontem, eu era um tamanho, hoje sou menor ainda, quem sabe amanhã posso ser grande? Antes disso, preciso de uma ampulheta ou um mapa com o texto mais descritivo possível, para me situar onde estou. Fiz o inimaginável, alcancei grandezas, mas me perdi nos meus deslumbres. Oh que visionário eu fui.

Sou rei, amanhã serei príncipe ou o bobo da corte. Posso ser aquele rapaz que toca as trombetas que passa a hierarquia portuguesa, por que não? Faço parte dos seres mais invisíveis que existe no planeta: o ser humano. Estou caminhando, não em círculos, mas aos pulos, porque as armadilhas são grandes.  

até breve...

sábado, 21 de abril de 2012

Nomes trocados




Shopping lotado. Você chega para pessoa e diz “Oi fulano de tal, tudo bem? Lembra-se de mim?”. A pessoa vira para você, por educação, te cumprimenta sabendo que aquele não é o nome do fulano correspondido. Você percebe o erro, conversa um pouco e depois vai embora. Até associar nome e pessoa, um simples aperto de mão se transforma num constrangimento para ambas as partes.
E quando isso acontece ao telefone? Principalmente quando na agenda do seu celular há três Alines, quatro Fabrícios e diversos outros nomes comuns. Ou então, quando você pensa que é a Patrícia quem está te ligando, mas não, é a outra Patrícia quem te ligou.
Celular tocando e vejo na agenda que é o Fernando (nome fictício, porque não me recordo exatamente com quem aconteceu), atendo na maior empolgação:
- Fala fela da puta, blz?
- Oi Higor, aqui é o pastor Fernando, tudo bem?
Automaticamente fico super constrangido e tento reverter à situação:
- “Ah, eh, oi pastor, tudo bem?”.
- Tudo bem, você tem ido à igreja?
Depois desse cumprimento e uma pergunta daquela, devo admitir que estivesse precisando de muita oração. Agora me pergunto quem nunca deu mancada ao associar nomes, endereços, cumprimentos etc?

até breve...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Posso?



Quem nunca ouviu a célebre frase: você sabe com quem está falando? Acredito que alguém já passou por isso, ou então, conhece alguém que tenha passado por essa situação. Comigo aconteceu de uma maneira peculiar.
O ano foi 2005, época em que eu trabalhava no posto de gasolina, local onde vendia a gasolina mais barata do centro de Brasília. Um emprego simples. Nada de extraordinário acontecia, a não ser, a movimentação intensa que acontecia ali. Durante o horário de pico, ou seja, todos os dias, eu tinha atendido mais de 100 carros, antes das 10 horas da manhã.
Formavam-se filas quilométricas de carros. Um dos principais motivos pelos atrasos no atendimento – o pagamento era feito por dinheiro ou cheque. No caso de pagamento com o cheque, o frentista devia seguir as seguintes instruções: o cliente deve mostrar o cheque junto com algum documento de identificação, depois o frentista pega e leva o documento junto com o cheque para o chefe de pista (ou gerente do turno), para verificar e autorizar se estava tudo nos conformes, e depois devolvia a identidade para o cliente preencher o cheque. Imagine o quanto tempo isso levava.
Durante a rotina intensa de trabalho, por um milagre ou azar, na minha “ilha”, não havia nenhum cliente. Então, eu sinalizei para um carro que estava no final da fila vir até onde eu estava. O cliente chegou com toda a pressa e já foi logo dizendo “enche o tanque!”.
- Gasolina ou álcool e qual é a forma de pagamento? – perguntei.
- Gasolina e o pagamento é no cheque – o cliente respondeu.
Peguei a chave, abri o compartimento do tanque e deixei a mangueira fazendo seu trabalho. Enquanto isso, eu fui adiantando meu lado, pedi o documento de identidade e a folha do cheque para confirmar a identificação de ambos.
- Para que isso? – o cliente questionou.
- São normas da casa. Preciso verificar se o senhor é o dono do cheque – falei
- Na minha identidade ninguém toca!
- Eu só preciso dela para mostrar para o chefe de pista – pedi com cautela, porque eu percebi que ele estava se exaltando.
- Não importa! Ninguém toca na minha identidade. Se você quiser, chame o chefe de pista até aqui.
Respirei fundo, caminhei pacientemente até o chefe de pista e avisei sobre o pequeno problema que estava acontecendo. O chefe de pista voltou para seguir as normas de trabalho. Enquanto isso, eu terminava de abastecer o carro do chato.
O chefe de pista verificou a identidade e o cheque, tudo ok. O cliente preencheu o cheque, confiro o valor, e depois ele sai.
Vou até o chefe de pista e pergunto:
- O que diabo tem aquela identidade que ele não queria mostrar?
- Não tinha porra nenhuma, só porque ele era um alto cargo nas forças armadas.
Paro e começo a refletir sobre o acontecido “o cliente pensa que é melhor do que eu, por ser frentista?”. Rapidamente acordo da minha distração, por causa de uma buzina insistente de outro cliente querendo abastecer o carro.
Vou até o carro e pergunto:
- Gasolina ou álcool?

Até breve...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Linha reta



Meu corpo pertence à terra, mas minhas palavras são do vento. Amarro os versos na janela do meu quarto, para que as orações alcancem o cume do próprio Deus. Escrevo para haja esperança em meus olhos marejados. Descrevo para me libertar. Quisera eu ter a mesma alegria de um cão, ver o mundo em linha reta, entretanto, o que eu vejo, não é o que sinto. O que ouço são vocábulos inexistentes.

O tempo está cada vez mais curto, sinto-o escorregando pelas frestas de meus dedos. A qualquer momento a caixinha vai parar de tocar a melodia da harpa cristã. A bailarina lentamente vai perdendo os rodopios.

Meu maior medo era um quarto escuro, e apenas ao toque do interruptor as dores iam embora. Que triste lembrança. Hoje, medo me traz inspiração. Sou seco e molhado. Corro. Piso na cabeça da serpente com botas de ouro do rei Midas, feitas especialmente para mim. Fui em uma cigana para jogar o tarô, durante a consulta, apareceu à carta da Morte, presságio de uma nova fase ou a morte voluntária se aproxima?

até breve...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Estrelas, verrugas e inocência

- Um, dois, três...
- O que você está fazendo? – Débora pergunta assustada.
- Estou contando estrelas – Carlos responde.
- Cê tá doido? Não pode contar estrelas.
- Por que não?!
- Porque cada estrela que você é uma verruga que vai nascer no seu corpo.
- Ah, de onde você tirou essa ideia? Eu nunca ouvi falar que contar estrelas pode dar verruga no corpo.
- Deer, todo mundo sabe que isso faz mal. Igual você colocar o “pozinho” que sai da asa da borboleta nos olhos você fica cego, e o pior de tudo, a cegueira é para toda a vida.
Carlos olha assustado para a amiga e pergunta:
- Agora eu vou ter milhares de verrugas pelo corpo?
- Acho que não, desde que você faça da maneira certa.
- Como é então?
- Deve contar as estrelas sem apontar o dedo, assim, você não pega as verrugas.
- Qual é a diferença em apontar ou não o dedo?
- Eu não sei, só que me falaram que é desse jeito. Mas, você quer ter verrugas pelo corpo ou quer me escutar?
Carlos continua contando as estrelas com mais precaução. Ele olha para o céu estrelado e continua contando os vagalumes estelares, mas sem apontar o dedo:
- Um, dois, três...

até breve......